Editorial de CULTURA – Lá os rios correm pro mar; Aqui em BH, pro bar

A CENA NOTURNA DESCE A RUA  O underground e o copo sujo voltaram a brilhar nas brumas das noites de doidos, bêbados, amantes, músicos e  poetas  

Subindo Bahia ou descendo Floresta, barzeamos* BH

 

Estamos em 2015 com rios secos, economia quebrada, politica arrasada, ladrões soltos.Mas os nossos  bares estão molhados de cachaças, musica, prosa, mulheres sedentas e cachaças leitosas.Desde a fundação da cidade, esta fonte não secou.Por enquanto.

Foi em 2009 que BH se auto declarou oficialmente como o centro dos botecos deste mundão de my “God “. E todo terceiro sábado do mês de maio é o dia dos botecos municipais,estaduais e ate´dos federais.Só  deles. E isso não foi por acaso, pois, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Belo Horizonte tem 12 mil botecos. Como a cidade tem 2.4 milhões de habitantes, isso significa que há um bar para cada 200 belo-horizontinos.E o percentual esta aumentando.De bares, claro.

Quem chega a capital mineira e procura a boa gastronomia mineira  ou esse cenário boêmio, logo recebe as ilustres indicações “ oh concurs” de bairros consagrados e que são tradicionais redutos dos bares da Boemia.Eles já fazem parte da história da cidade, como por exemplo o bairro de Santa Tereza, ou o inegável sucesso do segundo andar do edifício Maletta e seu público eclético.Sem esquecer o mais tradicional de todos: os corredores alcoólicos do Mercado Central e, claro, a tradicional , a  velha e boa Savassi.

Só que, quem não está tão por dentro da cena dos bares Belorizontinos, pode até não perceber, mas existem traços peculiares, assinaturas invisíveis que  como placas, indicam e avalizam diversos ambientes.Estufas peculiares com aquelas mesas de plástico -tipo patrocinadas por marcas de cerveja- somadas a sons variados de samba a breganejo. Ou alguns mais ecléticos com um som ambiente tocando rock’n’roll . Acham-se neste mix, pequenas  prisões de Bossa Nova, JAZZ e mixórdias gerais. Vez por outra, ao fundo um coro que não se importa com desafinos, mas só com  relax e’  expression ’ , estampadas no descabelado e olhos esbugalhados de poetas com versos sem rimas,  precoces e precários.

Sente-se as vezes nas calçadas ao redor desses lugares, o aroma peculiar aos grandes centros.Num efeito ” CHOU” *, um aroma de xixi misturado com hormônios, lembrando sexo e promiscuidade,  fruto maior  da tinta de obras primas escritas em frases ou retratos das enamoradas,  pintadas nas paredes vizinhas aos bares, com vigorosos jatos de mijadas cervejais.Renitentes artistas , recém expulsos de bares no fim da madruga. Na vizinhança de estabelecimentos sem estilo, onde vizinhos moradores antigos dormem a sono solto e novatos mandam os filhos da puta dos bêbados e ébrios passantes irem a PQP.

Sim. São espaços batidos e com características típicas de bares carinhosa e educadamente chamados de  ‘copo sujo’. Mas na linguagem da rua, CU SUJO, que é uma real, excelente e especifica categorização, destinada também a ofender donos de bares chatos  que insistem em fechar antes do sol raiar. Isto mais no centrão.

Mas aos mais polidos, bêbados de fraque e cartola, a media baixa Zona Sul, entre Savassi e baixa Bahia têm atraído um público típico, afim de curtir os bons e velhos ritmos que nunca abandonaram as ruas bucólicas de BH.Tem abrigo e lembrança pra todos, de todas as épocas e origens.

Gentrificação é como ficou conhecida e nomeada esta corrente migratória de bebados notivagos,  esse movimento de “retorno às origens” que o público dos botecos está fazendo e  que esta atraindo novos frequentadores. Tecnicamente é um fenômeno que altera a dinâmica de certas regiões levando à inauguração de novos estabelecimentos, valorização de imóveis e aumento do preço de alugueis nos novos points. E isso não é só em Belo-Horizonte. São Paulo, por exemplo, e outras metrópoles mundiais, como Berlim, Paris e Nova York, estão vendo essa migração acontecer.

Um dos sócios do Baixo Centro Cultural, casa noturna em frente ao Viaduto Santa Tereza, diz que a capital sempre foi um local com grande peso na cultura barzeira mineira .Ali, mais precisamente debaixo desse viaduto que essa mistura de públicos se iniciou. “Há poucos anos, o Duelo de MCs era a melhor festa da cidade”, diz ele. O duelo ainda acontece no local. “Tinha cerveja gelada, um churrasquinho –  ‘de gato’ -, somado a um som excelente”.

O seu Baixo, onde antes funcionava o Bordello, herdou também o “portello”, um hábito que as pessoas têm de ficar na porta da casa. Os garanhões se dizem na caça. O resto, azarando ; “Muita gente frequenta o lugar, mas nunca entrou”.

E sempre há as peculiaridades: tráfico, empréstimo ou compartilhamento de tapas e outras drogas, somados a placa olfativa invisível de banheiro publico de bêbados:o forte cheiro de mijo.Porque se fosse bar de rico seria odor de ureia, vulga urina. “Cada noite é de um jeito e cada público interage de uma maneira diferente com os moradores de rua e gente que frequenta os bares do entorno”, conta. “Queremos uma rua limpa, iluminação e policiamento. A gente pode pedir pra limpar a rua do lixo, do cheiro de urina. Mas não podemos limpar a rua de gente.Principalmente músicos ruins, de chatos e pedintes de cachaça, coisa antidemocrática mas muito necessária.  O que se pode fazer é garantir uma convivência pacífica, melhorar a interação”, e fazer de poste aos chatos. “No mais, o pessoal está acostumado com o mendigo pedindo um gole de cerveja”.Se pedir dinheiro leva porrada.Se pedir cachaça, leva e com tira gosto.

Na região do Mercado Central, o bar da Cledir é frequentado por gente que circula por ali no mercado.O local virou reduto para os curiosos que resolveram adota-lo recentemente  como ponto de encontro. Diz uma tiéte da boca, auto diplomada cientista social, que vai ao local há cerca de um ano: “Lá tem um público bem mix, formado por pessoas que já iam ao baixo centro e agora esta permeada pelo público que frequenta o Maletta e a Savassi.O gravitacional atrator maior é o baixo preço da cerveja. Sinto-me bem mais à vontade”, diz ela.

E não pense que os bons e velhos karaokês ficaram para sempre enterrados no passado. Eles também voltaram às graças do público. Que o diga o Bar da Cácia, existente há 23 anos na rua Rio de Janeiro, se tornou karaokê há dois. “O bar já teve música ao vivo e vários endereços na rua São Paulo. A frequência sempre foi ‘GLS’ (LGBT), mas agora o karaokê caiu no gosto do público, então, resolvemos entrar na onda”. Diz um destes anônimos macacos de auditório do bar: “Frequento o Bar da Cácia há quatro anos. O local é bem alternativo e tem ambiente agradável. O pessoal canta várias músicas que vão de Sandy & Junior a Carol Conká”. “Toda vez que vou, canto ‘Total Eclipse of a Heart’ (de Bonnie Tyler).Para não perder a pose, engrossa o coro de aprovadores, uma outra frequentadora que entra no papo sem ser chamada,  e que se diz psicóloga e doutora em Ciências Humanas ( perguntei se não seria pisiricologia – especialista em psirico – ;ela riu, me mandou a merda e continuou):  já vim aqui mais de dez vezes.Sempre que preciso parar de pensar ou que queira encontrar repórteres babacas , pitaqueiros indesejados como – me olhou –voce, venho aqui! Gentilmente como é de meu jeito e feitio, respondi ao elogioso comentário  da vaca entrona em conversa alheia, com um olhar de desdem,  e desejei-lhe um portátil e singelo   VTC de mão. COM FORÇA.

E quem entra ali pela rua Santa Catarina, entre a Avenida Amazonas e a Rua dos Tupis, vê um verdadeiro espetáculo chamado Quarteirão do Soul. Todo sábado ali se transforma em palco para uma invasão dos anos 70 no centro de Belo Horizonte. Pessoas de todos os tipos e idades se reúnem em torno de pick-ups cheias de vinis e carpetes estendidos pela calçada para cantar, dançar e ouvir black music. E totalmente de graça a M…

Já no morro, no pé do Aglomerado da Serra, existe um bar único em BH. Com almoço a R$ 12 de terça a sexta e R$ 15 no fim de semana, a clientela do local é classe A. Zé pretinho é o dono do local, que capta o gosto do público pela simplicidade do local. “Gostaria muito que o pessoal do morro viesse.Afinal  o dinheiro deles é igual ao de todo mundo”, diz Zé, que sempre trabalhou em bar antes de montar o seu. A Brahma custa R$ 7,50.Mas só vem a ricaiada diz ele.

Gerenciado pelo produtor cultural Rafael Henriques, o Puta Espaço Cultural, funciona desde maio deste ano, no Hotel Diamante, na Guaicurus, conhecida zona de prostituição de Belo Horizonte. A revitalização do baixo centro, a famosa “Boca do Lixo”, está de novo em movimento. E o mesmo hotel “duvidoso”, hoje, recebe festas povoadas por outra galera. A turma que promove a balada hoje, no entanto, não chegou a viver aquela época glamourosa na rua Guaicurus, que agora está inaugurando novos tempos.

Em um setembro  do passado 2014 aconteceu lá  “O Lindo Lago do Amor” e depois as festas do Forum.doc. Até que o hotel chamou Henriques para uma parceria. Fora do horário de funcionamento da casa o local é comercial, onde prostitutas (com predominância de transexuais) recebem seus clientes, na laputa da rotina de suor. “As pessoas entram com um olhar curioso. Às vezes, se assustam. É um universo novo para elas”, conta. De acordo com o produtor, algumas das profissionais da casa, “umas cinco ou seis”, se montam, põem vestido novo, e vão para a “night”. “Sobretudo no sábado”.

O coração desse reduto bêbado, musical , languido e promíscuo de BH foi a rua Guaicurus, do início ao meio do século passado.Tempos de Hilda Furação virando corações e tirando calças na Zezé, enquanto  a bilhetagem nos dancings expulsava os maus dançarinos. Ali, se reuniam em cabarés e bares memoráveis como o Montanhês e o Maravilhoso, onde homens de todas as idades e classes sociais exercitavam o prazer: dos mais pobres e punheteiros aos intelectuais e ricos comedores. Hoje, esse símbolo histórico ainda resiste, com tradição boêmia de várias décadas, a rua vem recebendo eventos de Carnaval e festas que levam gente não acostumada a frequentar a região. Na última Virada Cultural, o duelo do passinho fez a noite do público, com jovens apresentando números de break dance e competindo entre si. “A virada colocou em pauta a questão da visibilidade, pois colocou os meninos e meninas da periferia como protagonistas do espetáculo, na posição de poder cultural, que é o palco”, diz Guto, que foi o mestre de cerimônias da apresentação.

O desfile da Daspu’ aconteceu na mesma noite, que é o tradicional desfile de moda das prostitutas. A psicóloga Letícia Barreto trabalha com elas e participou. Ela acredita em uma glamourização da prostituição e dos meios em que as profissionais convivem. “Geralmente, quem vai a essas festas não são as garotas de programa, mas quem frequenta a Savassi”, diz. “Às vezes, quando tem evento na Guaicurus, as meninas ficam na janela, acenam e comentam que é bom porque têm mais clientes. Mas não participam efetivamente”, comenta. O que mais chamou a atenção foi que, na Virada Cultural o espectador foi formado basicamente pelo público da Zona Sul.Putas numa sociedade onde todo mundo dá pra todo mundo, quase acabAram, quase arrasou-se o metier milenar;A sorte que profissional é e sempre será profissional. Mesmo porque na vida, tudo de graça sai sempre mais caro, não é?

Além do movimento dos botecos e das regiões menos prestigiadas nos roteiros turísticos, estarem voltando à moda, Belo Horizonte sempre esteve disperta quando se trata do público LGBT. Desde dezembro de 2013, os campeonatos de Vogue – nome do estilo de dança de rua que se caracteriza por movimentos com poses – acontecem na cidade. Aqui foi o primeiro a acontecer no Brasil. A Gruta e o Matriz, sempre foram os dois espaços que abrigaram os eventos. “A festa ocorre uma vez por mês sempre fora do ‘circuito Savassi’”, conta o realizador do evento, Guilherme Morais. A última edição foi realizada no Galpão Cine Horto. Já o Matriz, era palco de shows de hardcore e heavy metal lá no mesmo começo dos anos 2000.

A Gaymada,um jogo de queimada feito por gays, é outra iniciativa em formato de campeonato , que acontece em praças e parques da capital.Aqui tudo pode tudo vê. BH esta viva.

Barzeamos* –Novo verbo que significa, frequentador viciado em bares. Ainda não alcoólatra.Quase lá.

Efeito Chou*-Efeito descrito pelo cientista CHOU en Lay , que descreve como os processos de memorias olfativas trazem lembranças que unem, lugares e situações e nos remetem a outras fazendo-nos sentir aromas característicos pre memorizados, associados a estas lembranças.Reativam caminhos hormonais.


Nenhum banner cadastrado ainda

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien